Blog do Oríosè

Mãe Senhora D'Oxum

 

Mãe Senhora D'Oxum, Filha ligitima de Felix...

 

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Ao pé da letra, realmente a frente do seu tempo a inesquecível Mãe Senhora D'Oxun.Maria Bibiana do Espírito Santo, a Mãe Senhora, Oxum Muiwá, filha legítima de Félix do Espírito Santo e Claudiana do Espírito Santo, nasceu em 31 de março de 1900, na Ladeira da Praça em Salvador, Bahia.

Era descendente da nobre e tradicional família Asipá, originária de Oyo e Ketu na África, importantes cidades do império Yoruba. Sua trisavó, Sra. Marcelina da Silva, Oba Tossi, foi uma das fundadoras da primeira casa da tradição nagô no Brasil o Ilê Axé Aira Intile, Candomblé da Barroquinha, depois Casa Branca do Engenho Velho, que deu origem aos terreiros do Gantois (Ilê Axé Omi Iyamassê) e o Ilê Axé Opô Afonjá, do São Gonçalo do Retiro.

Não se tem muita informação sobre a vida de Maria Bibiana, do nascimento até os 7 anos, talvez em razão da pouca importância que se dá nas comunidades de candomblé aos fatos e datas da vida secular e do pudor cerimonioso com que são tratados os fatos da vida pessoal dos seus membros, sobretudo aqueles tornados líderes, com uma posição e autoridade a serem preservados.

O que sabemos é que foi iniciada aos 7 anos de idade e, nesta época, já recebeu de sua mãe-de-santo, Eugênia Anna dos Santos, Mãe Aninha, Obá Biyi, a “cuia” que pertencera à sua bisavó, Marcelina Obatossí. O merecimento excepcional obtido por Senhora em tão tenra idade, deveu-se à sua linhagem familiar e espiritual.

Senhora foi preparada por Obá Biyi para ser sua sucessora. No Axé Opó Afonjá foi a Ossi Dagã e nas ausências de Mãe Aninha, assumia os cuidados com o culto e os filhos da Casa, auxiliando as tias e irmãs mais antigas no comando da comunidade.

Com a morte de Mãe Aninha e “depois de realizadas todas as obrigações e preceitos de acordo com a liturgia da seita, e tudo regularizado dentro do Axé Opô Afonjá”, em junho de 1939, Mãe Senhora assume, ainda com o título de Ialaxé, a direção do terreiro – “como era de direito, devido à sua tradicional família da nação Ketu, ao lado de Mãe Bada, Maria da Purificação Lopes, Olufan Deiyi, já idosa, mas reconhecidamente sábia e experiente, propiciando uma transição segura e tranquila até a sucessão concluída com sua morte e luto ritual. Segundo Deoscóredes Maximiliano dos Santos, Mestre Didi, seu único filho biológico, Mãe Senhora torna-se de fato e direito a Ialorixá do Axé, em 19 de agosto de 1942.”

No Ilê Agboulá, comunidade do culto dos Eguns de Ponta de Areia, ilha de Itaparica, exerceu sua liderança e recebeu o título mais elevado dado a uma mulher – Iya Egbé.

Sua fé em Xangô era inabalável, e sua dedicação ao orixá de sua mãe-de-santo era “maior até que ao seu próprio orixá” – que ela chamava de “meu anjo da guarda”.

Mesmo não residindo “na roça”, estava presente e tudo controlava com extremo rigor e pontualidade, empenhando todos os esforços para a fidelidade dos preceitos com entusiasmada dedicação.

Esta Senhora de Oxum de forte personalidade, deu seguimento às comemorações e festas tradicionais de acordo com o calendário estabelecido por Dona Aninha. Mantinha muitos dos hábitos instituídos por sua mãe-de-santo, como ter a sua manutenção econômica assegurada por atividade independente do sacerdócio.

Vivia o sacerdócio como uma missão. A partir de 1942, Senhora, já ialorixá, começou a tomar providências importantes para neutralizar as reticências e oposições que por ventura ainda perdurassem no interior do egbé e a substituir cargos tornados vacantes por afastamento, morte ou para reforçar sua liderança.

Criou então os cargos de substitutos no quadro dos Obás de Xangô – os otuns e os ossi obás – ou seja, os primeiros e segundos substitutos dos titulares, ampliando o quadro inicial dos 12 titulares para 36. E aprimorou a instituição, definindo suas funções e estendendo a escolha dos obás para o âmbito social, além dos limites da comunidade religiosa.

Provavelmente já como fruto desta nova orientação no corpo dos obás, Senhora e o Axé começaram a colher frutos importantes. Pierre Verger, que desde 1946 fixara residência na Bahia e, a partir de 48, fazia frequentes viagens à Africa, já desenvolvendo pesquisas, tornou-se um interlocutor interessado na retomada das relações entre afro-brasileiros e africanos. Foi assim, que em 1952, Dona Senhora, Oxum Muiwá, recebeu do Oba Adeniram Adeyemi, o Alafin (rei) de Oió, na Nigéria, um edun ará e um xerê de Xangô, acompanhados de uma carta, tratando-a com título de Iyanassô.

Como explica Vivaldo da Costa Lima, num artigo intitulado Ainda sobre a Nação Queto, Iyanassô é um título altamente honorífico, privativo da corte de Alafin de Oió, isto é, o “rei de todos os yorubás”. É a Iyá Nassó quem, em Oió, a capital da nação política dos yorubás, se encarrega do culto de Xangô, a principal divindade dos yorubás e o orixá pessoal do rei.

Dona Maria Bibiana do Espírito Santo comungava do entusiasmo de Pierre Verger de verem reatadas as relações culturais com a África e recebia com frequência a visita de intelectuais e embaixadores de países africanos como Daomé, Ghana e Senegal. O governo senegalês conferiu-lhe, em 1966, a comenda do “Cavalheiro da Ordem do Mérito”, pelos relevantes serviços prestados na preservação da cultura africana no Novo Mundo.

Mãe Senhora quando jovem

Dona Senhora de Oxum teve a satisfação de ver reconhecida a sua liderança espiritual, ainda em vida, em muitas homenagens que recebeu:

Em 1957, por ocasião do cinquentenário de sua iniciação, foi homenageada com uma grande festa no barracão do Axé lotado dos filhos-de-santo, obás e demais integrantes do egbé, delegações dos mais diversos candomblés da Bahia, personalidades da vida intelectual, muitas delas vindas do Rio de Janeiro e São Paulo, inclusive representações do presidente Juscelino Kubitschek e do seu ministro da Educação.

Em 1959, por ocasião do IV Colóquio Luso-Brasileiro, realizado pela UFBA, Dona Senhora ofereceu no Axé um grande amalá de Xangô, numa festa pública dedicada aos congressistas. Durante a festa, o escritor Jorge Amado saudou os convidados, em nome do terreiro e de sua ialorixá, dizendo “…Estais em vossa casa porque este terreiro de Xangô, este candomblé de Senhora, tem sido – permanentemente e sempre – uma casa da cultura e da inteligência baiana… somos orgulhosos deste templo e de seu significado. Aqui passaram e estudaram Martiniano do Bonfim, babalaô da casa, nosso Édison Carneiro, o feiticeiro Pierre Verger e hoje nós, homens de cultura, somos os defensores do seu segredo e de sua grandeza, ao lado desta figura invulgar de mulher, feita de uma só peça, rainha, se a este título damos sua significação mais profunda…”

Em 1965, Mãe Senhora recebeu o título de “Mãe Preta do Brasil” e foi aclamada pelas comunidades religiosas afro-brasileiras, que lotaram o Maracanã, no Rio de janeiro, com seus representantes, além de políticos e jornalistas.

Deixamos com Mestre Didi, seu filho e importante historiador da tradição da sua comunidade, a notícia do seu falecimento: “No dia 22 de janeiro de 1967, Maria Bibiana do Espírito Santo veio a falecer pela manhã, ao nascer do sol… Mãe Senhora, assim, como todos os de sua família, morreu de repente, e talvez por isso pareceu impossível a muitos acreditar na notícia da sua morte. Tão forte ainda, aparentemente tão sadia, com aquela presença de rainha, sua força de comando, sua intimidade com os orixás!”

Por:José Felix dos SantosBisneto de Mãe Senhora, Otun Algba do Ilê Axipa, Ogã doIlê Axé Opô Afonjá

NOTA DO EDITOR – O texto acima é um resumo da introdução do livro Maria Bibiana do Espírito Santo – MÃE SENHORA: saudade e memória, organizado por José Felix dos Santos e Cida Nóbrega – Salvador, Corrupio, 2000, 184 p.

Campanha em defesa da liberdade de crença e contra a intolerância religiosa

 

Campanha em defesa da liberdade de crença e
contra a intolerância religiosa:

Realização: CEERT – Centro de estudos das relações de trabalho e desigualdades e INTECAB – Instituto nacional da tradição e cultura afro brasileira e SESC/SP.

É com satisfação e orgulho que o CEERT – Centro de estudos das relações de trabalho e desigualdades, em parceria com o SESC/SP, INTECAB – Instituto nacional da tradição e cultura afro brasileira, lança a Campanha em Defesa da Liberdade de Crença e Contra a Intolerância Religiosa.

A liberdade de crença é um direito assegurado na Constituição Federal que necessita urgentemente de validade pratica, de modo que toda e qualquer crença ou religião possa ser exercida num contexto de respeito, paz e compreensão.

De outra parte, a intolerância e a discriminação que há séculos perseguem as religiões de matriz africana representam uma das faces mais perversas do racismo brasileiro.

As religiões indígenas, o judaísmo, o islamismo, o espiritismo, o budismo e outras religiões que no Brasil podem ser consideradas “minoritárias” também são vitimas de discriminação.

A negação dos feitos históricos, da herança civilizatória, dos heróis e heroínas, é uma pratica que inferioriza e desqualifica a riqueza cultural herdada dos africanos. A religiosidade , uma das mais belas expressões desta cultura, foi tratada, até pouco tempo, como assunto de polícia.

No passado, a própria lei discriminava e punia a religiosidade trazida pelos/as africanos/as escravizados/as. Em alguns casos, aplicava-se inclusive a pena de morte àqueles que professavam uma crença diferente daquela então considerada oficial.

No presente , a lei determina a igualdade de todas as religiões, mas, na pratica muitas são as violações de direitos.

Diariamente, diversos espaços, templos , e principalmente a TV, praticam a violência simbólica, por meio da intolerância religiosa, criminosa, grosseira, ofensiva, feita de uma única e repetitiva cena: a satanização e difamação da religiosidade afro-brasileira. Telespectadores são induzidos e incitados ao preconceito e discriminação religiosa. Discriminação religiosa é crime.

A lei vale para todas as religiões. Juntos, unidos, podemos fazer com que a lei tenha validade na prática.

Profº. Dr. Hédio Silva Jr. E Profª. Dra. Maria Aparecida Silva Bento

Coordenadores do CEERT

Uma história de resistência: leis do passado brasileiro que pregavam a intolerância religiosa:

No período colonial as leis puniam severamente as pessoas que discordassem da religião imposta pelos escravizadores (Constituição de 25 de março de 1824, art. 5º: “A Religião catholica Apostolica Romana continuará a ser a Religião do Império. Todas as outras religiões serão permitidas com o seu culto doméstico ou particular em casas para isso destinadas sem forma alguma exterior de Templo).

De acordo com as leis Filipinas,a heresia e a negação ou blasfêmia de Deus eram punidas com penas corporais.

O código criminal do império de1830 ,considerada crime :o culto de religião que não fosse a oficial ;a zombaria contra a religião oficial;a manifestação de qualquer idéia contrária á existência de Deus.

Decreto de 1832 obrigava os escravos a se converterem á religião oficial.

Um indivíduo acusado de feitiçaria era castigado com pena de morte.

Com a proclamação da república foi abolida a regra da religião oficial,mas a situação permaneceu praticamente a mesma:o primeiro código penal republicano tratava como crimes o espiritismo e o curandeirismo .

A lei penal vigente, aprovada em 1940, manteve os crimes de charlatanismo e curandeirismo.

Devemos lembrar ainda que até 1976 havia uma lei no estado da Bahia que obrigava os templos das religiões de matrizes africana a se cadastrarem na delegacia de polícia mais próxima. No estado da Paraíba, uma lei aprovada em 1966 obrigava sacerdotes e sacerdotisas daquelas religiões a se submeterem a exame de sanidade mental, por meio de laudo psiquiátrico.

No cotidiano, a perseguição policial, prisões arbitrárias e invasões de templos eram comuns – e acontecem ainda hoje, embora em menor número .

Não fosse a bravura, a garra e o heroísmo das sacerdotisas e sacerdotes, as religiões de matrizes africana já teriam sido sepultados pela intolerância e o racismo .

Hoje, esta situação esta mudando, mas ainda há muito o que fazer.

A saída é uma só: conscientização, conhecimento dos direitos, organização união.

A igualdade de todas as religiões perante a lei:

Atualmente não existe religião oficial no Brasil. Desde a primeira Constituição brasileira, de 1891, a idéia de religião oficial deixou de ter respaldo legal.

O Estado não apóia nem adota nenhuma religião. A lei o proíbe de eleger esta ou aquela religião como verdadeira, falsa, superior ou inferior; daí porque se diz que o Estado brasileiro é um Estado laico.

A constituição vigente, de 1988, não deixa dúvidas quanto a isso: todas as crenças e religiões são iguais perante a lei e todas devem ser tratadas com igual respeito e consideração.

A própria Constituição não permite nenhum tipo de aliança entre Estado e religião, e, ao mesmo tempo, proíbe a imposição de obstáculo a qualquer culto ou religião.

Além disso, a legislação garante ampla liberdade de crença e de culto, bem como proíbe discriminação baseada em credo religioso.

A associação religiosa, o culto, templo, os ministros religiosos e os fiéis são protegidos por uma série de leis.

Vejamos alguns dos direitos que a legislação assegura ás confissões religiosas, assinalada que ao final o leitor/a encontrará um anexo contendo indicações das leis mencionadas.

Discriminação religiosa é crime:

Ninguém pode ser discriminado em razão de credo religioso.

No acesso ao trabalho, à escola, a moradia, a órgãos públicos ou privados, não se admite tratamento diferente em função da crença ou religião.

O mesmo se aplica ao uso de transporte público, prédios residenciais ou comerciais, bancos, hospitais, presídios, comércio, restaurantes, etc.

A mais alta Corte brasileira, o Supremo Tribunal Federal, já decidiu que a discriminação religiosa é uma espécie de prática de racismo.

Isto significa que o crime de discriminação religiosa é inafiançável (o acusado não pode pagar fiança para responder em liberdade) e imprescindível (o acusado pode ser punido a qualquer tempo).

A pena para o crime de discriminação religiosa pode chegar a 05 anos de reclusão.

No caso de discriminação religiosa, a vitima deve procurar uma Delegacia de Polícia e registrar a ocorrência. O Delegado de Polícia tem o dever de instaurar inquérito, colher provas e enviar o relatório para o Judiciário, a partir do que terá início o processo penal.

Liberdade de culto e dos locais de culto:

Liberdade de reunião, de culto e de liturgia são direitos previstos na Constituição Federal.

Respeitando-se a lei, todos podem reunir-se pacificamente para manifestar sua crença, sem qualquer tipo de obstáculo do Poder Público ou de particulares.

O culto pode ser realizado e locais fechados ou abertos, ruas, praças, parques, praias, bosques, florestas ou qualquer outro local de acesso publico.

Segundo a Constituição Federal existem apenas três casos em que o culto pode ser proibido: quando não tiver caráter pacifico; se houver uso de arma de fogo ou se estiver sendo praticado um ato criminoso. (Lei nº 1.207 de 25 de outubro de 1950). Fora disso, é permitido tudo aquilo que a lei não proíbe. Não podemos esquecer, no entanto, que as leis sobre vizinhança, direito ao silêncio, normas ambientais, etc... devem ser ser sempre respeitadas.

O Código Penal proíbe a perturbação de qualquer culto religioso e a Lei de Abuso de Autoridade pune o atentado ao livre exercício do culto. (pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos, art. 18 / Convenção Americana de Direitos Humanos, art. 12 / Declaração para Eliminação de todas as Formas de Intolerância e de Discriminação baseada em Religiões ou Crença, art. 6º / Código Penal, art. 208 e seguintes / Lei de Abuso de Autoridades, nº 4.898, de 09 de dezembro de 1965)

A associação religiosa:

Para que uma comunidade religiosa tenha existência legal ela precisa estar organizada em uma associação, com atas e estatutos registrados em cartório. Esta associação é denominada associação religiosa.

Registrados os estatutos, a comunidade religiosa passa a ser reconhecida legalmente e pode exercer os direitos assegurados a todas as religiões. Vale lembrar que nenhuma lei, estatuto ou autoridade civil pode influenciar no funcionamento interno das confissões religiosas. Isto quer dizer que o estatuto deve ser adaptado aos rituais e preceitos de cada religião; e não o contrário.

Vejamos alguns dos direitos que as associações religiosas possuem:

* preparar, indicar e nomear seus sacerdotes de acordo com os padrões de cada religião ou crença;
* manter locais de destinados aos cultos e criar instituições humanitárias ou de caridade;
* criar e manter faculdades teológicas e escolas confessionais;
* ensinar uma religião ou crença em locais apropriados;
* solicitar e receber doações voluntárias;
* criar cemitérios religiosos, construir jazigos (criptas) no próprio templo religioso, para o sepultamento das autoridades religiosas (código penal, arts. 209, 210, 211 e 212 / Lei das Contravenções Penais, art. 67)

Os direitos do Ministro Religioso (Sacerdote e Sacerdotisa):

Cada religião tem o direito de preparar e nomear seus sacerdotes e sacerdotisas de acordo com os seus padrões e costumes. A lei não exige nem pode exigir que uma pessoa tenha cursado faculdade para torna-se um Ministro(a) Religioso(a).

Perante a lei, todos os sacerdotes e sacerdotisas são chamados de Ministro Religioso e todos gozam dos mesmos direitos. Para que uma pessoa se torne um Ministro Religioso ela precisa ser indicada por uma autoridade religiosa ou ser nomeada ou eleita por uma associação religiosa, legalmente constituída. A nomeação deve constar em ata e ser registrada em cartório.

Os Ministros(as) Religiosos(as) possuem vários direitos, entre eles:

* ser inscrito como Ministro Religioso na previdência social (para fins de aposentadoria, benefícios, etc...);
* celebrar casamento e emitir o certificado de realização de cerimônia;
* ter livre acesso a hospitais, presídios e quaisquer outros locais de internação coletiva, visando dar assistência religiosa;
* ser preso em cela especial até o julgamento final do processo;
* ser sepultado no próprio templo religioso;
* ao Ministro Religioso estrangeiro é assegurado o direito de visto temporário (Lei nº 9.982 de 14 de julho de 2000 / Código de Processo Penal, arts. 295 e 436 / Código de Processo Penal Militar, art. 242)

Para funcionar legalmente o templo religioso:

O templo religioso é o espaço físico, a edificação, a casa destinada ao culto religioso, na qual são realizadas as cerimônias, práticas, ritos e deveres religiosos (Constituição Federal, art. 150, inciso VI, alínea “b”).

Para funcionar legalmente o templo religioso necessita de ALVARÁ DE FUNCIONAMENTO expedido pela Prefeitura do município onde esteja localizado (Lei nº. 3.193, de 04 de julho de 1957).

Apenas e tão somente a Prefeitura tem poderes para expedir o alvará de funcionamento e nenhum outro documento substitui o alvará. O imóvel pode ser próprio ou alugado. De acordo com a Constituição Federal, o templo religioso é isento do pagamento de qualquer imposto, a exemplo do IPTU – Imposto Predial Territorial Urbano (Lei nº. 8.245, de 18 de outubro de 1991, art.53).

No caso de SÃO PAULO, uma lei municipal isenta os templos do pagamento de taxas de conservação e de limpeza pública (Lei do Município de São Paulo, nº.11.335, de 30 de dezembro de 1992).

Casamento religioso e a escolha de nomes de filhos de acordo com a religião dos pais:

A Constituição Federal determina que o casamento religioso tenha validade civil. Isto é, obedecidas as regras da lei civil, um casamento celebrado por Ministro Religioso de qualquer religião ou crença deve ser reconhecido legalmente. (Constituição Federal, art. 226 p.2º).

Existem dois tipos de casamento religioso (Lei dos Registros Públicos, arts. 71 e 72):

* o casal registra em cartório toda a documentação necessária, e, posteriormente, celebra-se o casamento perante Ministro Religioso;
* o casamento é celebrado por um Ministro Religioso e, posteriormente o casal apresenta a documentação necessária ao cartório.

Uma vez que a documentação esteja regular, o casamento terá validade legal (Código Civil, arts. 1.515 e 1.516 / Lei nº 1.100 de 23 de maio de 1950). Em um caso defendido pelo CEERT, o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul reconheceu pela primeira vez a validade do casamento realizado na Religião Afro-brasileira.

Quanto aos nomes de filhos escolhidos de acordo coma religião dos pais, a lei garante aos pais o direito de escolher livremente a denominação dos filhos. O sobrenome deve ser o mesmo da família, mas o primeiro nome é de livre escolha. Havendo recusa arbitrária ou preconceituosa do oficial de registro, os pais têm o direito de pedir ao judiciário que mande fazer o registro.

O Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo já determinou que uma criança batizada no Candomblé, fosse registrada com o nome africano. Diante da recusa do oficial em registrar a criança o CEERT assumiu o caso, os pais foram ao Judiciário e saíram vitoriosos. (Tribunal de Justiça de São Paulo, processo CG 3,089/2000; relator Desembargador Luis de Macedo, julgado em 14 de dezembro de 2000).

Faculdades de teologia e escolas confessionais:

A lei garante a qualquer confissão religiosa o direito de criar e manter faculdades teológicas, institutos teológicos ou instituição equivalente com o objetivo de preparar seus ministros religiosos. (Constituição Federal, arts. 209, 212, p.2º e 213)

O curso deve ter duração mínima de dois anos e ser equivalente a qualquer curso de nível superior. (Lei 9.394 de 20 de dezembro de 1996 – LDB, arts. 19, 20 e 77).

Do mesmo modo, uma associação religiosa tem o direito de criar uma creche, escola de ensino fundamental, de ensino médio ou faculdade. São as chamadas escolas confessionais. (Decreto-Lei nº 1.051 de 21 de outubro de 1969).

Tais escolas podem inclusive contar com apoio de recursos públicos.

A questão do ensino religioso:

A respeito do ensino religioso nas escolas públicas, não podemos esquecer que de acordo com a Constituição Federal o estado brasileiro é laico, ou seja, não adota nem apóia nenhuma religião.

Além disso, segundo a Constituição Federal, o ensino não é uma disciplina básica para a formação do aluno. Por isso mesmo, a matrícula é facultativa, isto é, os pais ou o próprio aluno têm direito de escolher, de freqüentar ou não a aula de ensino religioso.

Nenhuma criança ou adolescente pode ser prejudicada por ter escolhido ou não a disciplina de ensino religioso. Ninguém pode ser submetido a constrangimento em razão do credo religioso. Do mesmo modo, ninguém pode ser obrigado a freqüentar ensino religioso.

Os pais, os movimentos sociais e a sociedade civil devem ficar atentos para não permitir que a disciplina do ensino religioso seja utilizada para satisfazer interesses menores de grupos religiosos ou políticos.

Os fiés de todas as religiões e também os ateus pagam os impostos que mantém o ensino público. Por essa razão, o governo não tem o direito de usar dinheiro público para favorecer uma religião e discriminar ou prejudicar outra. (Lei 9.475 de 22 de julho de 1997).

Diga não a intolerância religiosa:

A Declaração Universal dos Direitos Humanos determina que a intolerância religiosa ofende a dignidade da pessoa humana e é uma grave violação dos direitos humanos. (Declaração Universal dos Direitos Humanos, art. 18).

Este é um assunto que diz respeito às religiões, mas também diz respeito a todos os defensores da cidadania e dos direitos fundamentais da pessoa humana. O primeiro passo nessa luta deve ser conhecer os direitos, divulgá-los, conscientizar as pessoas e a sociedade.

Segundo o IGBE, o povo brasileiro professa várias religiões. Há também os ateus, que pagam impostos como os fiéis e merecem toda a consideração e respeito. Todos devem ter o direito de praticar sua crença de acordo com os seus costumes, tradições e valores.

O Estado tem a obrigação de manter a paz social, a compreensão e respeito mútuo entre as várias denominações religiosas. Não haverá democracia plena no Brasil enquanto houver ofensas e discriminação de ordem social e cultural, baseada em religião ou crença. Diga não a intolerância e a discriminação religiosa.

Fonte de pesquisa:

Campanha em defesa da liberdade de crença e contra a intolerância religiosa.
Realização: CEERT / INTECAB e SESC/SP e APOIOS.

EGUNGUN – Nomes, Famílias, Rituais e Orikís

 

                                                      EGUNGUN

 

                                    egungun
                                             Egungun Babá Obá Olá

EGUNGUN – Nomes, Famílias, Rituais e Orikís

No ritual de Egungun, reside um dos maiores mistérios da cultura e ritualística Yorubana e Dahomeana. O culto ao Egungun, é um culto aos antepassados das pessoas falecidas que eram iniciadas no ritual dos Orixás ou Voduns ou ainda, no próprio ritual de Egun. Este ritual não é uma propriedade africana única. No Japão, existe uma semelhança no culto aos antepassados também, e que é de prática nacional. É tão sério e popular, que consegue manter a nação unida em torno desta prática. A única diferença entre estes dois cultos é que no Japão não existe a materialização dos antepassados, enquanto que na Nigéria, no Togo, Benin e Brasil, estas “aparições” são comuns e visíveis a todos os presentes.
É também comum na Nigéria vê-se os Ojés (sacerdotes de Egungun), provocando estas materializações, quando jogam várias roupas (axós – trajes) de Egungun no chão e minutos após, estas começam a inflar e tomar formatos humanos como se corpos existissem dentro de cada uma delas. Tais fenômenos acontecem em plena luz do dia, na rua e diante dos olhos de todos. O ritual começa no Ojubó (camarinha secreta), com oferendas, local onde as roupas são abençoadas e recheadas dos “axés”(força e poder), do ritual. Posteriormente, é feita a oferenda de um “agutã”(carneiro), sobre o “gbodô (pilão) o qual será levado à praça pública e invertido no chão, ou seja, colocado de cabeça para baixo. Após tais atos o Ologbô (sumo sacerdote de Egun) manda distribuir as roupas de cada Egungun que irá se materializar, no chão separadas a cada três metros. Ato contínuo, começam as cantorias sob o rítimo frenético dos “abados” (abanadores de palha) batidos em bocas de porrões” (grandes vasos de barro com bocas largas), acompanhados por “gans e agogôs” (sinetas de metal). – Tudo isto segue uma ritualística e está rigidamente dentro de uma hierarquia milenar.
Os “cargos” (títulos sacerdotais) estão dentro de uma nominação que assim está determinada em escala ascendente: 1 Ojé – 2 Eiedun – 3 Ojé Lese Egun – 4 Ojé alagbá – 5 Alapini – 6 Alagbá e 7 Ologbô. – O ritual é masculino e só permite a entrada de mulheres que sejam filhas de Oyá (Iasan) Igbalé, Oyá Zagan, Oyá, Messe Egun, Oyá Tolú e Oyá Izô. Existe um cargo intermediário com o nome de “Ojé Lesse Orisá”, que determina uma intermediação entre o Egungun e o “sirê” (toque) de Orisás ligados aos antepassados. Este cargo e ritual fica mais encravado no ritual de Geledê” da raiz Jêje.

Ritual

O ritual é complexo e exige uma iniciação demorada para aqueles que dele querem fazer parte. A Invocação chamada “Zerim” ou “Sirrum” consiste de cantigas ancestrais de louvação a cada Egun Babá e tem como base sonora os potes (porrões) de boca larga, agogôs, cabaças e “oberós” (alquidares) com água. Alguns “ilús” (tambores) também são usados e se diferenciam dos demais por serem cobertos com couro de “agutan” (carneiro). As roupas pertencentes aos Babás (pais) são confeccionadas em lantejoulas, vidrilhos, canutilhos, espelhos, cetim, telas e uma mistura de tecidos variados contrastantes entre si. Estas roupas não têm aberturas e são totalmente fechadas da cabeça (que varia de tamanho e formato), até os pés.
O ritual começa no barracão com as chamadas e as roupas jogadas no chão ou dependendo da “casa”, as roupas ficam dentro do “Ojubó” e à medida que os Babá vão chegando, estas roupas vão inflando e tomando seus formatos humanos(?), andando e falando. É comum ver-se um Babá sentar-se em um trono e gradativamente começar a desinflar até esvasiar a roupa, diante de todos os assistentes. Cada Babá tem a sua peculiaridade, sua cantiga própria, sua entonação de voz, sua roupa e sua linhagem totêmica. Também materializam presentes que deixam para seus filhos e amigos.
Os Babás não devem ser tocados por mão humana e para tanto são dirigidos durante suas apresentações por Ojés que têm nas mãos os “Inxans” (vara de amoreira) que os conduzem com pequenos toques. Porém, não raro, tanto na Nigéria como no Benin ou Bahia, algumas vezes os Babás permitem que alguém lhes apertem um braço ou uma mão para que todos tenham a certeza de que não existe uma pessoa dentro daquela roupa. Os Babás gritam e falam geralmente no dialeto Yorubá Castiço ou Ewe, no que é traduzido pelo Ojé que o acompanha. Os Babás atendem a pedidos mediante a entrega de oferendas (presentes) de momento com os mesmos escritos ou falados durante a cerimônia.

BABÁS EGÚNS FAMOSOS – Nigéria – Benin – Bahia – Pernambuco

Estes são alguns dos Babás Egungun mais famosos no eixo África - Brasil.
Ojé Ladê – Opetenan – Fatunuké – MamaTeni – Atô – Arô – Ologbojô – Aguian – Baká Baká - Alapiagan – Jootolú – Obilaré – Okin – Arisojí – Ode Layielú – Oba Olá – Oyá Biyí – Lapampa – Sembé – Aparaká – Olúlu – Oyé Ati – Élewe – Alarinsó – Ajóbiéwe – Ajofoyinbó – Aiyegunlá – Alapansanpa – Elegbodó – Awuró - Ijépa – Épa – Élé Fin – Ilóró – Pepéiye – Olókótun – Nouvavou – Mazaca – Zazi Boulonin – Zantahí – Wawá – Nibho – Rataloni – Obé Erin – Ólójé – Ólóhan – Olóbá – Aládáfa – Eléfí, Babá ALAPALÁ e Babá BANBUSHÊ ADINIMÓDÓ.
Estes são os mais famosos Babás do ritual de Egungun do Brasil e na África e, que, de uma certa forma “capitaneiam” os destinos das pessoas e por quê não dizer, o destino do Brasil.

Cantigas Secretas de Egungun

Ritual Jêje – (Sirrum)
Saudação:

Do manã Avalú elo ô,
Do manã Avalú jé roissô
Nainhê jí tu sabé deinho
Do manã Avalú já roissô
Sokó Beré
Iná Sakóeré
Etú nainhê sobe deinhó
Do manan Avalú já Roinssó
Invocação:
Avalumã, shenuê e shenuê
Shenuê, shenuê e, shenuê
Avalumã shenuê ago no shokotô
Houn já fineuá e, fineuá
Fineuá fineuá
Agô no shokotô.
E azan barékessé…zan
Azan berekessé..zan
Azan bá Egun
Obé ké makundo
Kunjala, jála obé
Obé ké makundo
Egun ma houn belé
Rekanssô marruô
Houn Belé Sogbô, hounbelé
Ma houn belé rakanssô marruô
Aziri in mamú ê
Aziri in mamu á
Idabaê, Aziri in mamí á
Ritual Yorubá – (Zerin)
Invocação:
Murace bí
Babá Kosé bé
Muracebi
Babe Kosé
Yá mofú inã
Yá ko izô
Yá kosé bé
Yá kota d´ele se
O murecebi Babá Kosé
Ikú to loxê Aparaká
Ikú to loxê Aparaká,
E a larê,
Ikú oló re ô
Jêje – Yorubá
Invocação:
Mauá, Mauá, Mauá
Vodunci ilê Mauá
Vodunci ilá Mauá
Lése Korré zó

ORIKY EGUN
Reza secreta Yorubana

Egun ayiê Ixibó Orún Móju Baré!!!

Sún ré òkún, òrun súnré ô
Órun re o, òkún, òrun, òrun re o,
Òkú ló gvéré a ko ri i mó
Akikanjú p´arada a kò bgohun ré,
Erín wo, erin ló,
Ajànàkú subu kó lê g´óké
Eni rené ló s´ájulé órun
Sun´ré o, Éni rere sùn ré o.
Bi ikú ba ngbowó
A ba fun um l´ówó
Bi ikú si ngb´ébó
A ba ra agbó funfun nìkinkìn
A ba ni ki ikú o gbá ko s´íjú
Ko féni rere lê kó jé kó pé
Ko feni rere lê leigbá èmi ré
Sún´ré o, Éni rere sùn´ré o.
Ikú t´ó fó niká silé t´o um éni rere
Bi ikú ba maa gbó a ba bé ikú
A ba dóbálé niwajú Élédá
A ba fi fere kórin àilónka
A ba ke pe ikú ko sáánú
Ko fi omo sílé fun abiyamó
Sugbón ilú di´´tí kó gbóhùn
Sún`re o, éni rere sùnre o.
Ikú fó`jú kó riram
Ikú féni búburú silé, o um éni rere
Bi ikú ba ti de ko gbó´oógun mó
Éni kú s´ébó tán
O simi o si bó Iówó iyónu
O di ebóra fun ómó arayé
O di òken nin awón Màleká ode-orun
Sun `re o, éni rere sun´´re o,
Kíni a ba wi, kini a ba só ?
Kini a ba fi sé ètùtù nlá yi ?
Ká tu ikú l´ójú k´a ye isókun ojú
K´a ba adájó ti nda ti a kó le ri
Ikú ti nmu´ni l´ohún, mu´ni léegun ara,
O mú´ni wó iínu ilé, a kó re i imó
O mu´ni wó iyéwu ré kó padá bó
Sun´re o, Éni rere sun´´re o.
Ébu rere kója ló si apá kejí odó
Ojó wo l´a o pàdé iwó òrisá ilé ?
Nibó l´a o pàdé iwó òrisá ilé ?
O di arinnakó o di oju alá
O di okio aláwo ati ti awòrawó
O di iwáju Olódùmaré Baba,
Ki a to fojú ganni ara wa,
Sun`re o, Eni rere sun´re o.

Não se pode confundir Egun e Egungun. Eguns são todos os espíritos de pessoas falecidas. Egunguns são espíritos de sacerdotes e sacerdotisas falecidos, ou seja, pessoas que foram iniciadas no ritual do Orixá ou no próprio ritual de Egungun.
Enquanto no âmbito dos Eguns, existem obsessores, e até mesmo demônios, que viveram e que não viveram, os Egunguns são espíritos antepassados que cuidam em dar continuidade à cultura e às tradições étnicas e tribais, para que seus sucessores (os vivos) tenham a melhor condição de vida possível. Egungun não aceita a mentira e a depravação e tão pouco a corrupção dos costumes e da ritualística. Por esta razão, pouquíssimas são as “casas” de candomblé de Egungun no Brasil, estando restritas à Ilha de Itaparica, na Bahia, em locais conhecidos por “Amoreira” e “Barro Vermelho”. No final do século XX e agora no século XXI, algumas tentativas de espalhar o ritual já foram feitas. Algumas com sucesso, outras não. Há que se ressaltar a homenagem ao grande Alagbá Aliba (Eduardo Daniel de Paula) na condução do ritual de Egun em Amoreira. Também destaque para Didi (Deoscoredes dos Santos), o Alapini de Itaparica, no seu trabalho de sucessão do falecido Aliba. Apenas para demonstrar o poder do ritual de Egungun e seus sacerdotes, destacamos da lista de Egungun acima o Babá Bambuxé Adinimodó, que em 1660 foi sumo sacerdote do Quilombo dos Palmares, em Alagoas, e encarregado pelo destino (Odú) de preservar, no Brasil, através dos ensinamentos, a raiz das tradições das diversas tribos africanas, para cá trazidas durante o nefasto tráfico de escravos. Bambuxé foi a alma , o espírito, o corpo e a mente estratégica e espiritual de Palmares, tendo como assessor o Tata Kaundê e juntos deram muito trabalho às investidas dos soldados e comandantes brancos em embates contra as tropas de Palmares. Não teríamos esta relação e este conhecimento, não fossem os ensinamentos místicos que Bambuxê nos legou através dos diversos discípulos que consagrou.
Em nossa visita e vivência em Lagos, na Nigéria, fomos franquiados a constatar e assistir alguns rituais de Egungun, realizadas em pleno dia em praça pública, presenciando as materializações de vários Babás e com eles tivemos a oportunidade de conversar, e trocando idéias, concluímos que eles amam os seus descendentes no Brasil, hoje negros, mulatos, mestiços e brancos. E conforme nos falou Babá Olobogjô e Babá Alapalá não tínhamos ido à África para “catarmos axés” e sim buscar os nossos fundamentos e conhecermos os nossos ancestrais de mais de quatrocentos anos. Para tanto, nos deram roupas, comida e habitação, além de todo conhecimento possível. Com todo orgulho, portanto, criamos esta página em homenagem àqueles que nos possibilitaram existir geneticamente, mantendo o conhecimento da ancestralidade, que nos mantém VIVOS.

Egun ayiê Ixibó Orún Móju Baré!!!
Se Alafiá

fonte: yorubana.com.br

Documentário–O Poder do Machado de Xangô

 

O Poder do machado de Xangô foi um documentário exibido pela Rede Globo no ano de 1976, que conta a história de Balbino, que sai em busca de suas origens Afro.

 

Cap. I

 

Cap. II

 

Cap. III

Cap. IV

 

Cap. V

Iniciação no Candomblé

 

ÌBÈRÈ — O RITUAL DE INICIAÇÃO

A iniciação possibilita manter a casa para pessoas habilitadas a lhe dar continuidade e manter um forte elemento de coesão do grupo, pela solidariedade natural que o fato determina. Todos passaram pelo mesmo ritual e sabem bem das diferentes situações enfrentadas. Os problemas emocionais, financeiros e psicológicos, aliados à força de vontade e, sobretudo, à humildade são um forte fator para se começar uma nova vida onde uma personalidade será construída. É todo esse conjunto de situações que possibilita o ingresso numa nova família: a família-de-santo.

A pessoa terá, então, um novo nome com o qual será conhecida, adquirirá novos hábitos e, principalmente, terá o compromisso constante como seu Òrìsà e com a sua Ìyálórìsà.

A reclusão possibilita treinamento metódico, estudo de sensações e observações gerais, além de ordenar e controlar as manifestações. Cria um condicionamento a certos ritmos e cantigas bem determinados, preparando a pessoa até o dia de dar o Orúko, ou seja, nome iniciático.

Não são os anos de feitura que promovem uma Ìyàwó, mas as obrigações de um, três e sete anos, quando então ela perde essa ÒRÌSÀ — pronúncia correta ORIXÁ — deuses Iorubás na África e no Novo Mundo — seriam ancestrais míticos encantados e metamorfoseados nas forças da natureza. Os deuses do Candomblé.

A palavra Orixá vem do sânscrito e é composta de OR ou ORI que significa “luz” e em Iorubá “cabeça”; XA que significa “senhor, chefe, dono”. São pois, as forças criativas da natureza. No Candomblé significa, dono da cabeça. A palavra “Orixá” significa, em iorubá “Ministro de Olorum”. Segundo outros autores, Oxalá é considerado o pai de todos os Orixás; e foi ele que os denominou Orixá. Este título de “pai”, neste caso, sugere a sua relação com as outras divindades no caso de muitas delas terem sido emanadas dele. A fragmentação do de seu corpo, e posterior recolhimento de todos os seus “pedaços” espalhados pela Terra, fez surgir a palavra Òrìsà, uma contração da expressão “OHUN TI A RI SÀ”, o que foi achado e juntado, fazendo, assim, surgir as demais divindades que foram denominadas Òrìsà. 

ÌYÁLÓRÌSÀ — pronúncia correta IYÁLORIXÁ — sacerdotisa do Candomblé; mãe (no culto de Orixá) Dirigente Feminina.

ORÚKO — pronúncia correta ÔRÚKÔ — nome iniciático.

ÌYÀWÓ — pronúncia correta IAÔ — adepto do Candomblé que ainda não completou os 7 anos de iniciação. Iniciada, Iniciado. A palavra “Orixá” significa, em iorubá “Ministro de Olorum”.

condição, passando a ser uma Ègbónmi. Ìyàwó é o primeiro grau de um caminho de promoções.

BÓLÓNAN — BOLAR NO SANTO

É a primeira manifestação de um Òrìsà numa pessoa, que ocorre geralmente de forma bruta e sem qualquer previsão. Pode ser durante uma festa ao se cantar para um determinado Òrìsà; a pessoa é vítima de tremores e sobressaltos, caindo no chão inconsciente. Este momento é visto como um apelo do Òrìsà à iniciação. Bolar vem de embolar, e é uma formar alterada do yorubá Bólóna(n) , BO, cair + lóna(n), no caminho. Nesses casos, a dirigente a cobre com um pano branco e ela é carregada para o interior da Casa. Lá é desvirada e comunicada. Se desejar, já permanecerá para a iniciação. Na maioria das vezes, volta para casa, ficando o assunto para ser decidido mais tarde. Se permanecer no terreiro, será na qualidade de Abíyán, uma aspirante. Dará um Bori, e terá um colar de contas de seu Òrìsà e de Òsàlá, lavados  com sabão-da-costa, e tomará um banho de folhas maceradas. Irá adquirir os materiais para a sua iniciação, comprando-os aos poucos, e passará a esperar por ela, que poderá ser junto com outros ou sozinha, o que sempre é mais oneroso. A iniciação conjunta estabelece um vínculo poderoso entre todos denominados irmãos-de-barco. Essa palavra barco pode ser entendida como um coletivo para os iniciados em grupo. Em outros casos, o Bólóna(n) se torna um ritual específico, quando o grupo a ser iniciado é reunido no terreiro e são entoados alguns cânticos de chamada. Isto tem o seguinte objetivo:

1 — Nos casos de haver no grupo pessoas apontadas pelo

Òrìsà como Ogans ou Ekedjis, para certificar-se de que eles não viram com o santo, podendo ser, assim, devidamente confirmados. Caso haja manifestação de algum Òrìsà, eles integrarão o grupo de futuros Adósù, ou seja, pessoas que serão devidamente raspadas e terão um ritual bem mais complexo e demorado.

2 — Certificar se o Òrìsà foi mesmo aquele revelado no jogo. A cantiga no qual se bolou será sempre lembrada e fará parte de sua

identidade.

Determinar a composição do barco de Ìyáwo, por ocasião da saída. O primeiro a se manifestar será o Dofono(a) do barco, ou seja, virá à frente dos demais. Através de articulações ou não, o primeiro será sempre um filho de Ògún, daí o título que este Òrìsà carrega, Asiwajú, o que vem na frente dos demais.

ETAPAS DA INICIAÇÃO

Em linhas gerais, há um modelo adotado pelas casas tradicionais pessoais da qualidade do Òrìsà. No Candomblé, cada caso é um caso diferente. Podemos enumerar os procedimentos a serem feitos:

1 — Subir para o Candomblé onde ficará três dias em descanso. São momentos de integração ao ambiente e às pessoas, longe dos problemas e outras preocupações.

2 — Será designada a Ajibóna(n) que a acompanhará como sua mãe criadeira. A iniciação já começa com a entrada da pessoa no Candomblé.

3 — No quarto dia, será realizado os Ebós,  e a pessoa tomará banhos de ervas.

DOFONO — significa a primeira Ìyáwo, ou seja, aquele que virá à frente dos demais. O primeiro a se manifestar no ritual do Bólónan será o Dofono do barco. Porém, através de articulações ou não, o primeiro será sempre um filho de Ògún.

ÒGÚN — pronúncia correta OGUM — Gum: guerra — Orixá guerreiro da tecnologia e da metalurgia.

ASIWAJÚ — pronúncia correta ASSIUAJÚ ? — título de Ogum que quer dizer “o que vem na frente”.

CANDOMBLÉ — é uma estrutura de culto às forças da natureza, à um hino, à vida como Eterno Movimento, que se manifesta nas danças, nas cores dos ORIXÁS, nos elementos sacramentais. Ritual comunitário de cantos, danças e alimentos sagrados na sua forma pública, o Candomblé é sacramentado pelo Pai ou Mãe de Santo, pelos Filhos de Santo, pelos tocadores de atabaque (OGAN), que entoam os cantos sagrados possibilitando a vinda do Òrìsás, com a participação da comunidade dos mais velhos às criancinhas. Todos cantam e saúdam os ORIXÁS, executam a dança sagrada, num hino à Alegria, Amor e Partilha. A palavra Candomblé possui dois significados entre os pesquisadores: Candomblé seria uma modificação fonética de "Candonbé", um tipo de atabaque usado pelos negros de Angola; ou ainda, viria de "Candonbidé", que quer dizer "ato de louvar, pedir por alguém ou por alguma coisa". AJIBÓNA — pronúncia correta AJIBÓNAN (vogal precedida de N) — cargo dentro do Candomblé que significa “mãe criadeira”.

EBÓ — do original EBO — oferenda. Para outros, significa, também, limpeza.

O RITUAL

Dar o Bori para, em seguida, entrar no Ilé Àse ou Hunko numa quarta ou quinta-feira. A partir daí o recolhimento é total.

Essa dependência da Casa é muito especial e onde é colocada uma esteira forrada com lençol branco, tendo por baixo algumas folhas sagradas.

Nos dezessete dias que virão realizam-se diversos ritos: o Gérun, o corte dos cabelos, lavagem da cabeça e a raspagem. Este ato é feito com a futura Ìyàwó. O cabelo representa a força. Dar o cabelo ao Òrìsà é um ato de submissão e renovação, pois o cabelo ao nascer de novo, vem com toda a força do Òrìsà. No Candomblé Kétu não são feitos tantos cortes, não confundir o Bori com o ato de iniciação. Ele é um ritual que antecede obrigatoriamente a iniciação, e nada tem a ver com “Bori de Fundamento ou de Feitura”.

ILÉ ÀSE — pronúncia correta ILÊ AXÉ — ILÉ = casa; no sentido mais amplo, a Terra — ÀSE = é a força vital e sagrada que está presente em todas as coisas que a natureza produz; grande fonte de poder que é mantida, ampliada e renovada por meio dos ritos que se processam nos Candomblés — ILÉ ÀSE é o espaço mágico — sagrado para o desenvolvimento das atividades religiosas, onde o exercício do culto é ministrado pelo seu dirigente. Para outros, o mesmo que Hunko.

HUNKO — pronúncia correta RUNCÓ — também conhecido como Roncó ou Camarinha — local onde se realiza o recolhimento e iniciação da Ìyàwó.

GÉRUN — pronúncia correta GUÊRUN ? — o corte dos cabelos, feito no ritual de iniciação da feitura do Santo.

A bucha é de origem asiática e aclimatada no Brasil, sendo muito utilizada nos serviços de limpeza. Na sua falta são utilizadas fibras de palha-da-costa.

FÁRI — pronúncia correta FARÍ — é o ato de raspar a cabeça para que sejam feitas as obrigações diretamente na cabeça. Vem de Fá = raspar, e Orí = cabeça. FÁ — pronúncia correta FÁ — raspar.

GBÉRÉ — pronúncia correta GUIBÉRÉ ou BÉRÉ ? — uma sutil incisão que é feita no alto e centro da cabeça, onde é fixado o Òsù, no ato da feitura de Santo.

Nos Candomblés de Angola, são feitos cortes em outras partes do corpo, inclusive na língua, e denominados Kura. Antigamente, essas kuras eram reabertas nas sextas-feiras santas.

KÉTU — pronúncia correta Kêtú — nação do Candomblé em que predomina o rito Iorubá. KETU: a cidade de Oxóssi.

Entende-se que o Àse irá penetrar pelos poros do corpo. Os sacrifícios são efetuados. Durante o ato do sacrifício, os cânticos tradicionais não são cantados. Tudo é feito em silêncio.

O sacrifício é um ato que segue a interpretação de que o sangue dá a vida, e as penas, a proteção, em lembrança da forma como a galinha acomoda seus pintinhos debaixo das asas.

Na seqüência, é feito o Kàro, o juramento da Ìyàwó, e o ritual de cantar folhas, o Sàsányìn. Será nesta oportunidade que o com o Odù da Ìyàwó será conhecido. Colocam-se em suas mãos os búzios para ela mesma jogar e a Ìyálórìsà interpreta a caída. As regras repetidas 3, 7 e 16 dias. 

ÀSE — pronúncia correta AXÉ — é a força vital e sagrada que está presente em todas as coisas que a natureza produz; grande frente de poder que é mantida, ampliada e renovada por meio dos ritos que se processam nos Candomblés. Axé significa “que assim seja”, ou “que Deus permita que isto aconteça”. É uma palavra sagrada tão importante quanto Amém, Assim Seja, Aleluia e tantas outras.

KÀRO — pronúncia correta KARÔ — é o juramento da Ìyàwó.

OBÌ — pronúncia correta ÔBÍ — noz de cola; fruto africano tão importante para o Candomblé quanto a hóstia para a Igreja Católica.

SÀSÁNYÌN — pronúncia correta SÁSSAN-IN — o ritual de cantar folhas.

ODÚ — do original ODÙ — pronúncia correta ÔDÚ — caminho, destino.

ÌYÁLÓRÌSÀ — pronúncia correta IYÁLORIXÁ — sacerdotisa do Candomblé; mãe (no culto de) Orixá. Dirigente Feminina.

No Sábado, que corresponde ao terceiro dia, realiza-se o ritual do Efun, a pintura da cor branca, que é feita com a nervura dendezeiro ou penas das aves. São saídas internas, feitas somente com a Ìyàwó de cabeça baixa e toda pintada de branco. Sai com o Ekódíde e o Osù, fazendo Pawó em frente à porta de entrada e aos atabaques. O Odíde é um pássaro sagrado por ser o único animal que fala. A sua pena vermelha é usada no sentido de lembrar o sangue menstrual da fertilização e dar o poder de abrir a fala da Ìyàwó.

Uma Ìyàwó nunca fica sozinha. É sempre acompanhada pela mãe-criadeira, que é a sua responsável. Na quarta-feira, é o dia da pintura do wàji e do Osùn, respectivamente, as cores azul e vermelha. Essas saídas Efun são realizadas com a Ìyàwó manifestada com o seu Òrìsà.

Essas pinturas representam uma forma de proteção e fechamento de corpo, impedindo que os pássaros das Àjé, as feiticeiras, pousem em sua cabeça.

Um cântico tradicional, ainda cantado na África por ocasião de ritos

semelhantes. A cor azul representa a bondade; a vermelha, boas notícias e a branca, a paz.

Nos intervalos, a mãe-criadeira procura saber o que a Ìyàwò sonhou, como está a sua reação. Algumas restrições são exigidas: comer com as mãos, sentar só no chão e, para ser atendida, fazer o Pawó, bater palmas. Essas proibições serão atenuadas após o Pana(n), que se revestirá da quebra destas e de outras kizilas impostas. 

EFUN — pronúncia correta ÉFUN — tintura branca, de origem mineral, feita com a nervura do dendezeiro. Pintura feita na Ìyàwó.

EKÓDÍDE — alguns chamam IKÓDÍDE — pronúncia correta ÉKÔDIDÉ — pena vermelha do pássaro chamado Odíde.

PAWÓ — pronúncia correta PAUÓ — bater palmas.

ÒDÍDE — pronúncia correta ÔDÍDÉ — pássaro sagrado que possui pena vermelha. É um pássaro sagrado por ser o único anima que fala.

WÁJI — pronúncia correta UÁJÍ  — tintura azul de origem mineral. Pintura feita na Ìyàwó.

OSÙN — pronúncia correta ÔSSUN — tintura vermelha de origem mineral. Pintura feita na Ìyàwó.

AJÉ — do original ÀJÉ — o mesmo que Eleiye. São as Ìyámin. A Ajé-Mãe mais conhecida é Iyá-Mi-Oxorongá. IYAMI OSHORONGÁ — também chamada ÌYÁ-MI — v. Iyá-Mi Oxorongá  — (ancestrais femininos cultuados coletivamente; é a representação do poder feminino expresso na possibilidade de gerar

filhos). As temíveis feiticeiras. As Grandes Mães. As Iyá-Mi são a representação das mulheres ancestrais. Todas as Grandes Mães que passaram pela terra integram o corpo das Ìyá-Mi.

PANA — pronúncia correta PANAN (vogal precedida de N) — quebra de kizilas; o final do castigo. PANA(N) vem de PA ÌNA(N).

O Ìyàwó participara dos rituais, em alguns casos acordada e em outros necessariamente virada com o seu Òrìsà. Em seu confinamento, aprende as danças, rezas, o modo de se comportar. É ensinado o repertório do seu Òrìsà, com as cantigas que lhe estão associadas, como também a do grupo do qual fará parte. Passa a conhecer a hierarquia do terreiro, seus deveres e obrigações. É o tempo do Kélè, um colar que se ajusta ao pescoço para lembrar-lhe sua condição de iniciante e suas severas restrições.

A Ìyàwó recolhida usará o Sàworo, uma pulseira feita de palha-da-costa trançada, com guizos, e usada no tornozelo. Ele a acompanhará em todo o processo de iniciação, possibilitando revelar onde a pessoa se encontra, principalmente nos momentos de Erè, um tipo de entidade infantil que se apossa da pessoa para atenuar a rigidez do recolhimento. Revela os mitos, que foi uma forma de Yemojá saber onde Omolu se encontrava, quando se escondia nos pântanos, envergonhado das doenças de seu corpo.

Após a iniciação haverá mais outras três obrigações: de 1, 3 e 7 anos, que complementarão o seu aprendizado, deixando, então, de ser Ìyàwó, para ser Ègbónmi.

Sábado, o 17° dia, será a cerimônia do Orúko Ìyàwó, literalmente, o dia em que será revelado o nome iniciático. 

KELE  — colar que se ajusta ao pescoço para lembrar à Ìyàwó a sua condição de iniciante e suas severas restrições.

SÁWORO OU SÀWORO — pronúncia correta XÁUÔRÔ — é um trançado de palha-da-costa com guizos, usado no tornozelo, símbolo de Omolu. Segundo alguns é também usado no tornozelo para afastar os espíritos de Àbìkú que tentam buscá-lo, lembrando-lhe a data de sua volta.

ERE — pronúncia correta ÊRÊ — segundo alguns vem do original ERE e segundo outros, vem do yorubá ÌYERE (logo, a pronúncia deveria ser IÊRÊ, grifo nosso) — entidade infantil ligada a todos os Orixás. É uma vibração especial dos Orixás; é o mediador entre o iaô, o babalaô e um Orixá. O iaô recebe Erê tomando a vibração infantil ordenada.

YEMOJÁ — pronúncia correta YEMANJÁ (deveria ser YEMONJÁ — vogal precedida de M - grifo nosso) — Orixá do mar. O nome Iemanjá, ou seja, Yemojá deriva de Yèyé omo ejá que vem de iya: "mãe"; omo: "filho"; eja: "peixe" e que quer dizer "Mãe cujos filhos são peixes". Na África Iemanjá é a Rainha dos Rios; daí é o Orixá que em terra yorubá é patrona de dois rios: o rio Yemonja e o rio Ògún — não confundir com o Orixá Ògún, Deus do ferro. Daí Yemonja estar associada à expressão Odò Iyá, ou seja, "Mãe dos Rios".

OMOLU — pronúncia correta OMÓLÚ — Omolu é uma flexão dos termos: Omo= filho; Oluwô= senhor. Omolu quer dizer "filho e senhor”.

Ègbónmi significa, minha irmã mais velha ou meu irmão mais velho. É uma saudação que se transformou em título indicativo de precedência.

ORÚKO ÌYÀWÓ — pronúncia correta ÔRUKÓ IAÔ — é o dia em que será revelado o nome iniciático. ORÚKO = nome iniciático; ÌYÀWÓ = adepto do Candomblé que ainda não completou os a Ìyàwó, sentada num banquinho, sofrerá nova raspagem e haverá um novo sacrifício animal. Já com o seu santo assentado, acompanhado das contas e o Mokan, símbolo da iniciação, será dado o Àse da fala, com um pombo e a pena do pássaro Òdíde.

À noite será a cerimônia pública, com três aparições, sendo que algumas casas o fazem com quatro apresentações. A primeira saída vem de branco em homenagem a Òsàlá, a segunda com roupas coloridas, e a terceira com roupa de gala de seu Òrìsà, trazendo suas insígnias. É denominada saída rica. Será na última apresentação que o Òrìsà dará o nome pela boca da Ìyàwó. É o Ojó Orúko, ou seja, o dia do nome. Cada Òrìsà tem características particulares, mesmo sendo o mesmo Òrìsà com a mesma qualidade; porém, trata-se de energias diferentes, com dosagens diferentes.

Todo Òrìsà tem sua adoração especial, e então tem um nome para se

diferenciar dos demais. Para isto, é convidada uma pessoa proeminente da religião para tomar-lhe o nome. Ela recebe uma sineta, Àdjà, o símbolo do poder e da autoridade. Num rápido passeio pelo salão com a Ìyàwó, agitando o Àdjà, lhe pergunta o seu nome, por três vezes, e ela responde após uma volta por si mesma. Será este o seu novo nome, e que é recebido com palmas e com a presença de outros Òrìsà.

A Ìyàwó é agora um falcão, com o poder das alturas, que a distanciarão dos perigos. É um dos objetivos da iniciação.

A seguir, nesta mesma noite, as Ìyàwó irão trocar de roupa e levar o carrego, Erù Ìyàwó, de suas obrigações. É o carrego final para a fertilização da terra, pois no Candomblé nada se perde. É o Erùpin. Verger revela que, na África, quem dá o nome é a própria pessoa que realizou a iniciação. Em outros tempos, nos Candomblés, era desta forma que o nome era anunciado.

ÀDJÀ — pronúncia correta AJÁ — sineta, símbolo do poder e da autoridade.

ERÙ ÌYÀWÓ — pronúncia correta ERÚ IAÔ — é o carrego das obrigações da Ìyàwó. ERÙ = carrego; ÌYÀWÓ = pronúncia correta IAÔ — adepto do Candomblé que ainda não completou os 7 anos de iniciação. Iniciada, Iniciado.

É o ERÙPIN, de ERÙ = carrego e PIN = final. Ou seja, é o carrego ou ritual final, que será deixado em local determinado pelo jogo. Ao sair com o carrego coberto por um pano branco e levado na cabeça, as luzes são apagadas, e cantam:

Erù pin — o carrego ou ritual final

E rù dà— você carrega silenciosamente

Dá níse — sozinha e cansada

Bó re adá— libertando-se dele

Erù pin o

E rù dà

Dá níse

Bó re adá

Ao retornarem cantam:

A se ma re lé — vocês surgem e tornam-se realidade

O kú àbó òde — saudamos seu retorno, bem-vindos

Ilé okun lè — a casa tem a força de que vocês precisam.

Retornam com as luzes acesas, e todos cantam para Òsàlá. No dia seguinte, domingo, será o ritual do Pana(n), de Pa e ìna(n) — o castigo final. Num ambiente informal e descontraído, as proibições — Èwò, que anteriormente eram imperativas, são atenuadas.

ÈWÒ — pronúncia correta ÊUÓ — coisa proibida. Proibição, regra, preceito; o mesmo que quizila. Tudo aquilo que provoca uma reação contrária ao axé, dá-se o nome de kizila ou èwò, ou à volta à consciência normal com um reaprendizado dos gestos da vida comum. Assim, todos imitam atividades diversas, como costurar, varrer, lavar, capinar, etc. Ficam em estado de Ere, do yorubá Ìyere, uma divindade encantada de características infantis, uma forma de descontração após dezessete dias de rígida disciplina. Ela será maior com a retirada de Kele, três meses após, ou antes, dependendo de suas atividades normais.

Trata-se de uma cerimônia particular, podendo haver festa, contanto que o ritual seja privativo.

Uma pessoa, quando sai da iniciação, não é mais a mesma. Ela é modificada, por força de certas restrições que lhe foram determinadas. Por exemplo, o que comia antes já não pode comer mais. Comer manga e abacaxi faz o sangue ficar quente, e isto pode não ser bom para a pessoa. Carne de porco e de caça pode vir a ser problema. São kizilas que trarão problemas para o corpo. Outros tipos de kizila são determinados pelo respeito. Não comer abóbora é explicado pelo mito que revela que ela é a representação do primeiro ventre que pariu o primeiro ser. Se comer abóbora estará comendo a barriga da mãe ancestral. Outras são as kizilas solidárias, ou seja, o respeito à kizila da Ìyálórísà, ou de seus irmãos-de-barco. Kizilas de cor, não usar pano xadrez ou vermelho, tudo isto vem pelo fato de que o Òrìsà tudo determina, pois é ele que usa o corpo conforme os seus desejos. Uma kizila infringida quebra a força que o Òrìsà botou na pessoa.

Como dissemos, as próximas etapas serão as obrigações de um, três e sete anos, que de certa forma poderão ter o seguinte andamento:

1 ano — 3 dias de recolhimento, no mínimo: Ebo, Bori, oferendas secas e bichos de pena. Não leva Ekódíde, nem Osù e não raspa.

3 anos — uma semana de recolhimento: Ebo, Bori, oferendas secas, animais de duas e quatro patas,  cantam-se folhas nos três, sete e dezesseis dias.

7 anos — uma semana de recolhimento (varia de asè para asè); mesmas obrigações anteriores, usa o Kele de sua iniciação e faz resguardo de 21 dias. Após esta obrigação terá algumas regalias, como a de ter Oyè, um título que qualificará suas funções. Ele pode ser com função restrita a um Òrìsà, ou pertinente aos atos da sociedade, de um modo geral. 

Alguns exemplos de Oyè:

Afikode — posto no quarto de Òsóòsì.

Àjímúdà — posto no quarto de Omolu.

Apokan — posto no quarto de Omolu.

Balógun — posto no quarto de Ògún.

Elémòsó — posto no quarto de Òsàgiyán.

Ìgbàlè — posto no quarto de Yánsàn.

Kaweó — posto no quarto de Òsányìn.

Ogalá — posto no quarto de Òsàlá.

Sobalóju — posto no quarto de Sàngó.

Ìyá Efun — a mãe do branco, a responsável pela pintura. Geralmente, são filhos de Òsàlá.

Ìyá Síhà — significa seguir em direção a um caminho, sendo ela quem conduz o estandarte de Òsàlá.

Ìyá Égbé — mãe da sociedade, com funções de conselheira, de manter a ordem e a tradição.

Ìyábàsè — responsável pela cozinha, de Sè = cozinha.

Sárepégbé — aquele que leva os convites e recados a outros Candomblés, de sáre = correr,

pè – convidar, égbé – sociedade.

Ìyáláse — zeladora do Àse.

Tojúomo — aquela que olha pelas crianças, de Ojú – olhar, Omo – criança.

Akòwé — responsável pelas compras, literalmente, escritora, secretária.

Ìyámórò — responsável pela cuia do Ìpàdé, de mú – pegar, orò –

obrigação.

Alágbè — tocador de atabaque, de alá – dono, agbè – cabaça.

Asògún — o que sacrifica os animais, literalmente, aquele a quem foi outorgado o Àse de Ògún.

Todos os trabalhos são feitos em cima de determinadas propriedades do corpo, sendo seu reduto principal o Orí, ou seja, a cabeça. Ele representa todo o Àse que uma pessoa possui. É a essência da sorte e a mais importante força responsável pelo sucesso. A sobrevivência

do ser humano depende do Orí e de quem mexe nele.

Existem pessoas que têm as seguintes características:

Owó Àjé — mão de feitiço

Owó Burú— mão ruim

Owó Ìkú —mão da morte

Owó Rere —a boa mão, a mão da sorte.

A grande tarefa de quem vai se iniciar é buscar a casa cuja dirigente tenha a mão da sorte e da felicidade — Owó Rere. Para detectá-la, basta verificar o terreiro, o dia-a-dia de sua dirigente e a situação das pessoas que lá se encontram. Devem ser considerados dois pontos: a iniciação não promove ninguém à riqueza financeira, embora não seja descartada esta hipótese; segundo, ter uma boa mão não está relacionada ao conhecimento, embora as duas condições sejam o ideal. Esta preocupação inicial é fundamental para que não ocorra desilusão na escolha e a pessoa, posteriormente, entre na rotina de ficar pulando de Casa em Casa, e a sua cabeça rolando de mão em mão.

A ciência dos ritos, e em especial a iniciação, tem como base o sacrifício como meio de despertar energias para uma afinidade.

O orí, que nós chamamos de cabeça e que contém a individualidade e o destino, desaparece com a morte, pois é único e pessoal, de modo que ninguém herda o destino de outro. Cada vida será diferente, mesmo com a reencarnação.

Um Orí possui cinco pontos de real importância para os ritos do Candomblé:

Ìpakó —a nuca

Iwájú Orí —a testa

Apá Òtún —fronte do lado direito

Apá Òsì —fronte do lado esquerdo

Àwùje— o alto e centro da cabeça, onde é feito o Gbéré.

Existe uma relação entre os Àbìkú e os Ibéji; um não quer ficar no mundo, o outro vem em forma dupla. Quem é Àbìkú não pode ser raspado e nem raspar ninguém. Não joga e nem coloca as mãos nos búzios. aquele que nasce para morrer. Pessoas que sobreviveram a situações perigosas no nascimento, como os nascidos com o cordão umbilical em volta do pescoço, os que nasceram com os pés, os abandonados recém-nascidos e os que ficaram órfãos ao nascer, etc. São duas as interpretações: a criança que, ao nascer a ãe morre; a criança que morre ao nascer em partos sucessivos. O ideal iorubá do renascimento é às vezes tão extremamente exagerado, que alguns espíritos nascem e em seguida morrem somente pelo prazer de rapidamente poder nascer de novo.

São os chamados ABIKUS (literalmente, nascido para morrer).

Segundo alguns, o Sáworo é um trançado de palha-da-costa com guizos, usado no tornozelo, símbolo de Omolu. Em seguida, coloca-se uma cabaça aberta pela metade, emborcada na cabeça da pessoa, onde serão feitas as pinturas, banhos e demais preceitos. Toda essa técnica é realizada de madrugada por haver maior concentração de energia.

Em linhas gerais, a cabeça é a principal divindade de uma pessoa devido ao seu relacionamento com o destino e sua sorte. O seu poder pode ser assim definido:

“Orí eni ni mu ‘ni j’oba” - A cabeça de uma pessoa faz dela um rei.

É a principal parte do ser humano. Geralmente vem primeiro ao mundo, abrindo caminho para trazer o resto do corpo. É através do Orí que nos alimentamos e nos comunicamos, sendo a sede da consciência e dos principais sentidos físicos. Pela sua importância, encarregou a um antigo Òrìsà, Àjàlá, a tarefa de moldar o Orí com barro da melhor qualidade fornecido por Òsàlá. Entretanto, como nem sempre os Orí saiam com perfeição desejada, Olódùmarè ordenou a Òrúnmìlà que ensinasse aos seres humanos como restabelecer o equilíbrio necessário em suas cabeças. Assim, nasceu a cerimônia do Bori. O conceito de Orí é básico para explicar acontecimentos que de outra forma seriam incompreensíveis, como a morte súbita, sofrimentos e boa sorte.

As diferentes cerimônias realizadas no corpo de um iniciado possuem relação direta com os conceitos da criação divina. A cultura yorubá que deu o modelo de Candomblé Kétu no Brasil entende o ser humano como uma composição de elementos físicos e extra-físicos assim definidos, que explicam a razão do que até aqui foi explicado.

ORÍ ENI NI MU ‘NI J’OBA — pronúncia correta ÔRÍ ENÍ NÍ MÚ NÍ JÓBÁ — expressão que

quer dizer “A cabeça de uma pessoa faz dela um rei”.

ÀJÀLÁ — pronúncia correta AJÁLÁ — antigo Orixá encarregado da tarefa de moldar o Orí

com barro da melhor qualidade fornecido por Oxalá.

OLÓDÙMARÈ — pronúncia correta ÔLÔDUMARÊ — o deus Supremo. O mesmo que Olórum.

ÒRÚNMÌLÀ — pronúncia correta ORUNMILÁ — deus criador do oráculo de Ifá. A testemunha do Destino.

INICIAÇÃO NO CANDOMBLÉ KÉTU

O sacerdócio e organização dos ritos para o culto dos Òrìsàs são complexos, com todo um aprendizado que administra os padrões culturais de transe, pelo qual os deuses se manifestam no corpo de seus iniciados durante as cerimônias para serem admirados, louvados, cultuados.

Os iniciados, filhos e filhas-de-santo (ìyàwó), em linguagem ritual, também são popularmente denominados "cavalos dos deuses" uma vez que o transe consiste basicamente em mecanismo pelo qual cada filho ou filha se deixa cavalgar pela divindade, que se apropria do corpo e da mente do iniciado, num modelo de transe inconsciente bem diferente daquele do kardecismo, em que o médium, mesmo em transe, deve sempre permanecer atento à presença do espírito. O processo de se transformar num "cavalo" é ser assim sumariados:

Para começar, a mãe-de-santo deve determinar, através do jogo de búzios, qual é o Òrìsà dono da cabeça daquele indivíduo (Braga, 1988). Ele ou ela recebe então um fio de contas sacralizado, cujas cores simbolizam o seu Òrìsà, dando-se início a um longo aprendizado que acompanhará o mesmo por toda a vida. A primeira cerimônia privada a que a noviça (abíyán) é submetida consiste num sacrifício votivo à sua própria cabeça (borí), para que a cabeça possa se fortalecer e estar preparada para algum dia receber o Òrìsà no transe de possessão. Para se iniciar como cavalo dos deuses, a abíyán precisa juntar dinheiro suficiente para cobrir os gastos com as oferendas (animais e ampla variedade de alimentos e objetos), roupas cerimoniais, utensílios e adornos rituais e demais despesas suas, da família-de-santo, e eventualmente de sua própria família durante o período de reclusão iniciática em que não estará, evidentemente, disponível para o trabalho no mundo profano.

Como parte da iniciação, a noviça permanece em reclusão no terreiro por um número em torno de 21 dias. Na fase final da reclusão, uma representação material do Òrìsà do iniciado (assentamento ou igbáòrìsà) é lavada com um preparado de folhas sagradas trituradas.

No Candomblé sempre estão presentes o ritmo dos tambores, os cantos, a dança e a comida (Motta, 1991). Uma festa de louvor aos Òrìsà (toque) sempre se encerra com um grande banquetecomunitário (ajeum), que significa "vamos comer", preparado com carne dos animais sacrificados. O novo filho ou filha-de-santo deverá oferecer sacrifícios e cerimônias festivas ao final do primeiro, terceiro e sétimo ano de sua iniciação. No sétimo aniversário, recebe o grau de senioridade (Ègbónmi), que significa "meu irmão mais velho"), estando ritualmente autorizado a abrir sua própria casa de culto. Cerimônias sacrificiais são também oferecidas em outras etapas da vida, como no vigésimo primeiro aniversário de iniciação. Quando um iniciado morre, rituais fúnebres (axexê) são realizados pela comunidade para que o Òrìsà fixado na cabeça durante a primeira fase da iniciação possa desligar-se do corpo e retornar ao mundo paralelo dos deuses (Orun) e para que o espírito da pessoa morta (egún) liberte-se daquele corpo, para renascer um dia e poder de novo gozar dos prazeres deste mundo.

Fonte: Livro o Culto dos Orixás